Cronista, cancioneiro, brasileiro, mineiro Vander Lee
Em sua terceira visita aos palcos de Viçosa, o cantor e compositor mineiro Vander Lee se apresentou com a banda ontem, 15 de junho, no Espaço Cultural Fernando Sabino da UFV. O show foi uma parceria com a FACEV e faz parte do Circuito Universitário promovido pela Do Brasil Projetos e Eventos.

Acompanhado pelo guitarrista Luiz Peixoto, pelo baixista Thiago Correia e pelo baterista Arthur Rezende, o belohorizontino Vander Lee mostrou suas canções de Pensei Que Fosse o Céu, gravado ano passado no Palácio das Artes (BH), e relembrou alguns sucessos da carreira que ultrapassa 20 anos de música. Pensei Que Fosse o Céu é o quinto CD lançado pelo cantor que conquistou este ano o Prêmio TIM de Música como Melhor Disco na categoria Canção Popular.

Em entrevista coletiva, o artista falou de seu estilo, dos planos e da importância da música na sua vida.

Tom Hertz · O que inspira você a compor para levar sua música para todo o Brasil?
Vander Lee ·
O que me inspira compor, basicamente, são minhas vivências pessoais, o cotidiano, as coisas que eu vejo. Minha música não é auto-biográfica, de forma alguma, mas o tecido, o pano de fundo dela, meu cenário é muito próximo da minha vida. A vivência principalmente. Depois tem um segundo momento de estruturar o texto, a música, onde entra a ‘sua’ bagagem. Eu leio livros, muitos poetas bons, vou me informando.

Tom Hertz · E o que você gosta de ler?
Vander Lee ·
Eu admiro muito Drummond. Não poeta, mas contista, eu gosto de Saramago. Gosto do gaúcho Mário Quintana, Pessoa, Manoel de Barros. Romances eu leio bastante, acaba sendo a maior parte da minha leitura, mas eu tenho um apreço especial pela poesia, que eu conheci através da música.

Ellen Araujo · Qual a emoção por ter ganhado o Prêmio TIM?
VL ·
Foi interessante. Prêmio é um marco, eu achei legal. Fiquei lisonjeado embora eu considere ‘ali’ como uma formalidade. O prêmio que eu ganho é o público nos shows, são as músicas tocadas no dia-a-dia, é isso que me move.

Felipe Menicucci · Por você se concentrar mais a região de Minas Gerais, como foi gravar o Programa do Jô?
VL ·
Pô, a notícia corre, né!? (risos). Foi legal, fui muito bem tratado. Sempre participei de programas de auditório e de entrevistas mas eu fiquei impressionado com a estrutura global. Eu recebi um tratamento muito bacana. Há uma diferença entre quem quer ser famoso e o artista, e eu fui muito bem tratado como artista, como alguém que tem uma história pra contar. Pra mim foi uma experiência muito agradável. Comigo o foi muito respeitoso, conduziu bem a entrevista, fiquei dois blocos, apresentei muitas músicas. Eu senti que eles buscaram o cara por trás da música, mais do que o artista, a pessoa por trás do artista. Achei muito bacana, muito valioso.

Tom Hertz · Como foi a experiência de tocar fora do eixo Rio-Minas-São Paulo e como você sentiu a aceitação do público?
VL ·
Eu tenho um público imenso no nordeste. Os shows são sempre grandes, com multidão. Semana passada nós tocamos em São Gabriel, numa praça com 5 ou 10 mil pessoas, no interior da Bahia e o pessoal cantando. Uma coisa surpreendente. Eu gosto muito das coisas de interior, independente de ser sul ou norte. Eu gosto muito das cidades pequenas, dos pequenos festivais, das coisas mais alternativas. Até porque a própria estadia nossa é mais prazerosa, a gente é mais bem tratado. Estar ali, pra cidade, é um presente. A gente é mais bem recebido. com relação a Rio-São Paulo você se sente numa terra de ninguém, e quando você vai pra uma cidade menor, pros lugares mais esmos, você tem a sensação de que a sua música está sendo importante para aquelas pessoas ali, é um povo que valoriza mais.

Marcos Oliveira · O seu show tem vários formatos. Como acontece o preparo para cada tipo?
VL ·
Isso tem a ver com a performance. O técnico de som é meu parceiro, ele conhece tudo o que eu vou fazer na voz, então ele joga o tempo todo pra poder amplificar minhas intenções. A banda, a mesma coisa. Ao invés de ser um Vander Lee no palco tem dez cabeças trabalhando, cantando igual, com a mesma intenção. É uma coisa que me dá um certo descanso mas me afasta do público. Eu sinto que o show com a banda ele não cumpre tão bem a coisa da letra, de passar o recado, do cara perceber a nuance, é uma coisa de interpretação mesmo. Quando tira isso tudo e fica ali o violão, uma percussão, um som mais leve, valoriza muito o autor e o intérprete e geralmente é um show que a gente faz quando eu to indo pela primeira vez, não tem um público ainda, é uma coisa de mostrar o trabalho. Quando acontece isso eu noto que eu, sem a banda, consigo um resultado melhor pra fincar uma bandeira naquela cidade, naquele lugar. Agora, o show com a banda funciona melhor quando já é uma realidade.

Inês Amorim · A última vez que você veio à Viçosa foi em 2004. Quais as principais mudanças até hoje e qual vai ser o Vander Lee que o pessoal pode conferir de diferente da última vez?
VL ·
Em termos de repertório mudou quase tudo embora haja uma fase muito fértil na minha carreira entre 99 e 2003 que as pessoas consideram como a fase mais inspirada. Mas agora eu estou na fase mais técnica, evoluindo em relação a arranjo com a banda, como um Leader Band, como um homem de palco. Eu acho que é isso. Um cara mais resolvido com seu trabalho e também mais consciente do seu limite e com uma relação mais franca com o público.

Tom Hertz · Quem é o músico Vander Lee? Como você define sua música?
VL ·
Eu sou um cronista, cancioneiro, brasileiro. Como eles definem na América Latina são os canta-autores, que é o cara que pega o violão e sai por aí contanto casos musicalmente, são menestréis. Mesmo antes de cantar as minhas músicas eu pegava o violão todo dia, saía à noite, ia pro bar cantar. Eu me sentia um declamador-de-poemas-cantor, mas, autodidata. Uma pessoa feita no fazer mesmo.

Tom Hertz · Quais suas influências musicais?
VL ·
Eu tenho admiração por vários músicos mas, influência é uma coisa subjetiva. Muitas vezes um cara que eu admiro não me influenciou em nada. Chico Buarque eu acho um grande cronista popular brasileiro, talvez seja ele o cara que melhor fala sobre o Rio de Janeiro. Ele é uma referência pra mim de que eu não quero fazer música sobre o Rio de Janeiro, nem aproximar minha estética da dele. Não sei se ele me influencia, mas eu o admiro muito. Eu gosto muito do Tom Jobim na forma de compor músicas, mas eu não sinto que a minha música seja influenciada pela dele. Às vezes, o que me influenciou foi músicas que eu ouvi na infância. Eu tenho uma memória da infância muito forte. Ouvi muito Alcione, Beth Carvalho, Bezerra da Silva, através de meu irmão mais velho. E rádio, muito rádio. Roberto Carlos me emocionava muito, música americana, italiana, as canções sempre me tocaram mesmo. Teve uma época que eu descobri o Luiz Melodia, conheci o som dele com 15 anos, daí eu comecei a pesquisar artistas similares e cheguei a Tom Zé, César Sampaio, uma geração ali muito interessante da década de 70, Gonzaguinha, muita gente que eu sinto que compõe meu personagem, Jorge Ben.

Tom Hertz · Como foi o processo de gravação do seu DVD?
VL ·
Meu outro DVD foi gravado em junho no Palácio das Artes. Um show com um cuidado maior, uma banda super bacana, só com músicos de BH, com um convidado de fora que foi o Zeca Baleiro e, outro convidado, o Marco Lobo. A idéia era mostrar as músicas comercialmente mais conhecidas, nem eram as melhores músicas, eram as mais conhecidas mesmo. Anterior a esse eu gravei um DVD dentro de um estúdio em BH, onde a gente reuniu 40 pessoas convidadas, fizemos um show acústico. Eu convidei alguns amigos, a Regina Souza tocou comigo, o Chico Amaral tocou um bandolim lá comigo, o Renato Mota cantou uma parceria nossa, o [Maurício] Tizumba também. Isso foi uma coisa mais entre amigos, uma coisa bem íntima e o DVD é intercalado com depoimentos, brincadeiras. É bem informal que ‘periga’ ficar mais legal do que o outro que é um show. Esse é meio lado B, bem interessante, é mais íntimo, mais simpático.

Rafael Munduruca · No processo de composição, qual a importância da palavra?
VL ·
A palavra, pra mim, ela está mais ligada ao som que ao sentido. Em algumas músicas, lá pra trás, eu usava muito o recurso sonoro dela, abria mão do contexto, tirava a palavra de um universo e jogava em outro. Mas depois, não. Eu tive umas experiências muito fortes na vida, ser pai, passar dificuldades na coisa de viver de música e tudo. Eu me senti afim de falar de coisas mais concretas. As músicas demoraram um pouco mais pra sair. Elas saíram em menos quantidade mas com maior densidade. As necessidades vão mudando, mas minha relação com a palavra é constante. Eu escuto coisas que na mesma hora dá vontade de anotar e, geralmente, vem do cotidiano, vem do dia-a-dia. Eu estou no supermercado comprando, eu vejo o nome de um produto, aquilo já me induz a uma brincadeira com a palavra. Embora, ultimamente, eu tenha escrito muito pouco pra música. Eu tenho essa relação com o som, intuitiva. Não sei explicar como, mas quando eu me sento pra compor uma música as palavras vão se encaixando ali. Eu gosto muito de rimar, eu sou dos poetas antigos, Noel Rosa, Cartola. Eu gosto da rima. É uma poesia simples mas que serve ao tamanho da minha música que também é modesta.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s