A Raiz

 

Nelson Rodrigues criticou a postura do povo brasileiro no fim da década de 50 usando a expressão “Complexo de vira-latas”. O Brasil necessitava de identidade e de acabar com o complexo de inferioridade que trazia consigo quando se comparava com os outros países do mundo, principalmente a seleção brasileira de futebol, tão criticada por Nelson.

A seleção venceu as Copas de 58 e 62 e, a partir de um conjunto de acontecimentos, a atitude do povo brasileiro também começou a mudar. No início da década de 60 vários ícones surgiram no nosso país, entre eles: Oscar Niemayer, JK, Maria Ester Bueno, Pelé e Garrincha. Uma nova capital – Brasília – foi construída e entramos nos chamados Anos de Chumbo, com o golpe militar de 1964.

Sob essa efervescência social e cultural, a música brasileira, que também carecia de identidade, conheceu uma revolução sem precedentes. Nessa época surgiram alguns dos mais importantes movimentos musicais brasileiros da história: a Bossa Nova, a Jovem Guarda e a Tropicalismo, que trouxeram artistas como Tom Jobim, Regina, Roberto e Erasmo Carlos, Chico Buarque, Caetano Veloso, Gilberto Gil e Geraldo Vandré.

Foi nesse período que surgiram os Festivais de Música Popular Brasileira. O primeiro foi organizado pela TV Excelsior, em 1965. As torcidas pelas músicas beiravam o fanatismo religioso e acabavam por intimidar alguns concorrentes. Dois anos depois da estréia na Excelsior, a TV Record realizou o que talvez tenha sido o mais marcante dentre todos os festivais. O III Festival de Música Popular Brasileira, teve como vencedora a música Ponteio, de Edu Lobo, que havia vencido também o primeiro festival. Apesar da consagração do músico, outros fatos foram tão relevantes, ou mais, dentro do Festival quanto o próprio vencedor.

Dois personagens tiveram destaque durante o festival. O primeiro foi Gilberto Gil, que introduziu a guitarra elétrica no país ao tocar Domingo no Parque na companhia dos Mutantes. A música terminou em segundo lugar e as vaias se transformaram em aplausos no decorrer da música. Já Caetano Veloso, que tocara ‘Alegria, Alegria’ e teve a presença instrumental dos argentinos do Beat Boys, ficou em quarto. Apesar de não terem vencido, Gil e Caetano deram o pontapé inicial, naquele festival, no que viria a ser o Tropicalismo. Alguns outros nomes importantes da música brasileira ganharam notoriedade a partir desse festival como Renato Teixeira, Martinho da Vila e Gal Costa.

É fato que, a partir da década de 60, a música no país ganhou uma roupagem brasileira e deu sustentação para que se tornasse um produto nacional valorizado pelo povo. “Vem vamos embora que esperar não é saber/Quem sabe faz a hora, não espera acontecer”, da canção Pra Não Dizer que Não Falei Das Flores, de Geraldo Vandré, é um exemplo de como a MPB nascia engajada com o anseio popular. As músicas passaram a criticar, exaltar e a serem usadas de instrumento contra o regime que se instalava, mesmo com a ameaça da repressão.

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