Gotthard

Os suíços do Gotthard se preparam para dar vôos cada vez mais altos. Após 17 anos de estrada e muito sucesso, principalmente pela Europa, saíram em turnê com as canções do mais recente álbum, Domino Effect, lançado em 2007.Influenciados pelo Hard Rock dos anos 70, mais evidenciado nas figuras de Led Zepellin e Whitesnake, a trupe, que iniciou sua carreira na pequena cidade de Lugano, na Suíça, é sucesso de público e vendagens na Europa. Recentemente, após trocarem de gravadora (sai BMG, entra Nuclear Blast), tiveram seu primeiro trabalho lançado no Brasil, o vibrante Lipservice.

A banda – formada por Steve Lee (vocais), Leo Leoni e Freddy Scherer (guitarras), Marc Lynn (baixo) e Hana Habegger (Bateria) – vem sobrevivendo aos modismos e ultrapassando as fronteiras que são impostas aos grupos de Hard Rock. Gotthard respira – e com muito fôlego – dentro de um cenário musical que já foi dado como morto, há algum tempo. Os suíços resgataram o HR tradicional com muita personalidade e, ao lado do os maiores representantes do gênero na Europa.

Durante uma pausa na turnê, Freddy Scherer, guitarrista da banda número um do país dos Alpes, conversou com o Estúdio ao Vivo, falando sobre dificuldades, projetos futuros e evolução musical do grupo.

Como é o processo de composição da banda? Como é estar em um estúdio gravando novas canções para um novo álbum?

Normalmente, nós começamos individualmente a escrever músicas ou idéias de canções em casa. Todos temos nossos pequenos gravadores. Uma vez que a idéia começa a clarear, nos reunimos e as apresentamos. Assim, decidimos o que continuará sendo trabalhado e o que vai ser guardado. Quanto mais a música vai se definindo, mais a banda se envolve. As letras são escritas pelo Steve Lee, assim que a música fica pronta. Em alguns casos, a música e a letra são feitas por apenas um membro da banda. No último álbum, temos o exemplo de Falling, que foi escrita pelo Leo Leoni.

A gravação de uma música é o processo final e tudo pode acontecer. Suas músicas favoritas se tornam B-Sides, e B-Sides se tornam grandes canções. Na verdade, tudo muda até o final do processo de mixagem. Então, é muito fascinante assistir o desenvolvimento de uma música até que ela esteja pronta.

Toda banda tem suas dificuldades para começar uma carreira musical. Quais foram os principais obstáculos para o Gotthard em seu início? E quão difícil foi ter suas músicas reconhecidas fora da Suíça?

A Suíça tem seus pontos positivos e negativos para o início de uma banda. O lado bom: é um país muito pequeno, então muitas coisas podem ser feitas e controladas pela banda no começo. A parte ruim é que outros países não consideram a Suíça um mercado importante, com bandas importantes. Isso faz com que seja difícil (mas não impossível, como nós mostramos) ter atenção fora do país. Desde que o Gotthard começou, muitas coisas mudaram na indústria musical. A Internet e sites como o MySpace, hoje, são quase tão importantes quanto as gravadoras. O melhor, é claro, é você poder contar com as duas coisas. Há 17 anos atrás, era quase impossível conseguir fãs sem o suporte de uma gravadora. Hoje, bandas como o Arctic Monkees mostram que gravadoras não são necessariamente necessárias, no início.


Quais são as mais significantes diferenças que você consegue perceber na evolução da banda, desde o primeiro álbum Gotthard até o Domino Effect? Em todos os aspectos: relação com selos fonográficos, parceiros de banda e produtores, letras, enfim …

Bom, é claro que muita coisa mudou nesses 17 anos. Provavelmente, o aspecto mais importante tenha sido esse trabalho com a Nuclear Blast, que tem distribuição em 45 países e nos abriu muitas portas. Nossa gravadora anterior (BMG) concentrava a distribuição em 4 ou 5 países, o que inviabilizava fazer shows em países como Brasil, Suécia e Espanha. Outro fator primordial é que, desde o álbum Lipservice, Leo Leoni assumiu o papel de produtor da banda. Isso quer dizer que o Gotthard não tem pessoas ao seu redor que tentem mudar nossas idéias musicais.

Como as novas tecnologias de produção musical beneficiam uma banda como Gotthard? Qual a sua opinião sobre o uso dessas tecnologias (novos softwares, emuladores de instrumentos) no processo de composição e gravação?

O fator principal é que nos nossos dias as coisas correm mais rápido do que há 20 anos atrás, o que nos permite conseguir produzir todo tipo de efeitos vintage sem gastar milhões. Você não precisa mais pedir a igreja ao padre para gravar a bateria (com eco). Há maneiras mais simples de se fazer isso hoje em dia. No caso do Gotthard, isso não afeta o processo de composição de nenhuma forma, mas é uma grande ajuda que temos no nosso próprio estúdio, aqui em Lugano.

Vocês lançaram o D-Frosted, acústico, em 1997, e desde então fizeram algumas apresentações no mesmo formato. Vocês têm planos de gravar algo acústico nos próximos anos, incluindo canções dos álbuns pós D-Frosted?

Sim, existem planos para outro álbum acústico. Mas isso não acontecerá antes de 2009/2010, e ainda estamos avaliando o tipo de gravação. Primeiro vamos nos concentrar no nosso próximo álbum regular, que deve ser lançado no próximo ano.

Onde você acha que estão concentrados os maiores amantes do rock n’ roll hoje em dia?

Os fãs do rock estão espalhados por todo canto. Isso, definitivamente, nós descobrimos nas nossas duas últimas turnês. Se existiram países que nos impressionaram, provavelmente foram Brasil e Espanha. Toda vez que tocamos nesses lugares tivemos um retorno muito caloroso. Agradecemos muito por isso.

Vocês vieram ao Brasil para duas apresentações (em Rio de Janeiro e São Paulo) durante a turnê do Made In Switzerland, têm planos para voltarem com a turnê do Domino Effect?

Estamos checando as possibilidades de ir ao Brasil, mas não há nada confirmado ainda. Amaríamos voltar aí, mas como você sabe, não é tão próximo à Suíça, então fica um pouco mais complicado.

Gostaria de agradecer muito pela atenção e, como fã, gostaria de vê-los em breve (e mais frequentemente) por aqui.

Espero nos encontrarmos muito em breve. Continue ouvindo o bom e velho rock n’ roll. Fique atento às novidades no nosso site: http://www.gotthard.com/

Agradecimentos: Gerard Werron e Florian Fink, representantes da Nuclear Blast; e Renata Barbosa, co-fundadora do site do Fã-clube brasileiro do Gotthard:

Fotos: Site oficial
Para ver a entrevista em inglês, na íntegra, clique aqui (english version)
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Tropicalismo_Backstage

No Backstage do Tropicalismo

Nem só com rostos famosos foi articulado o Tropicalismo. Por muitas vezes não reconhecemos quem ajudou e fez, nos bastidores do movimento, com que ele ganhasse uma cara. Sim, Caetano foi uma espécie de mentor artístico e estético, Gil mais engajado na política, mas outros personagens fizeram com que tudo dentro dessa ‘revolução’ funcionasse como uma engrenagem.


O maestro Rogério Duprat é um desses exemplos. Grande arranjador, aliou a música erudita com a popular, e teve uma íntima relação com os trabalhos dos Mutantes. Produziu Domingo no Parque, e se alternou na produção de vários artistas ligados ao Tropicalismo, como: Nara Leão, Rita Lee, Gal Costa e vários outros.

Outro grande arranjador foi Júlio Medáglia, que produziu canções de Caetano como Tropicália, se notabilizou como um dos mais versáteis e competentes entre os artistas brasileiros. Manuel Barenbein também se notabilizou na produção de trabalhos tropicalistas. Panis et Circensis foi um de seus mais reconhecidos . Além disso, produziu discos de Chico Buarque (o convenceu a gravar seu primeiro LP com suas próprias canções) e Elis Regina.

O polêmico Guilherme Araújo desempenhou papel fundamental para o sucesso do movimento. Era ele quem cuidava das carreiras de Gil, Caetano e Gal. Influenciava na escolha de repertórios e até roupas que os artistas vestiriam durante os shows. É considerada uma peça chave da época.

Por último, e não menos importante, o artista gráfico e compositor Rogério Duarte. O baiano é um dos mentores intelectuais do movimento, fazendo – além de algumas letras – capas de vários discos. Rogério era um fervoroso militante de esquerda na década de 60, quando foi preso, torturado e enviado a hospícios.

Infelizmente a genialidade desses participantes do underground do Tropicalismo não é tão reconhecida. Guilherme Araújo e Duprat faleceram recentemente. Medáglia, Barenbein e Duarte ainda estão na ativa, em diversas áreas. E se não fossem eles?

Di(fundindo) a Cuca


A Tropicália foi uma boa patada no nacionalismo. Porque não tinha como ser nacionalista num país que ninguém reconhecia. Foi anti-elitista. Porque a elite estava com os olhos vendados diante da realidade do País – que crescia, mas só afundava. Foi de ruptura. Que MPB que nada, eu quero mais eletricidade!

Ditadura, AI-5, Médice, ano de chumbo, 1967. Realidade demais pra pouco movimento.

É nessa que vem a revolução da estética hippie, com influência dos Beatles, vejam só, e muita guitarra elétrica junto ao nada requintado da cultura brasileira. Nada de Bossa Nova pra gringo ver: era Tropicália pro Brasil se enxergar.

O Movimento que abrange artes plásticas, música, cinema, teatro e poesia não era organizado. Aliás, grande “pecado”: ele rompia com a concepção de Movimento. Tudo foi acontecendo às claras, expontâneo, sem pré-determinações. Porque controle já se tinha ao extremo.

Tropicália traz em Panis Et Circenses um misto de tradição e modernidade, de cafonismo e humor. Como grandes brincalhões, os tropicalistas falavam mais alto que as vaias pra mostrar a importância da luta de verdade. Não aquela em qualquer refrão de música. Berravam pelo respeito às diferenças e pela reinterpretação cultural. Postura afirmativa, sim. E acima de tudo, postura.

Uma grande novidade foi a participação de maestros com formação clássica erudita. Rogério Duprat, Júlio Medaglia e Damiano Cozzela deram às obras musicais arranjos grandiosos, que reforçavam o tom lúdico das apresentações cheias de roupas coloridas e grandes cabelos encaracolados.

Cabelos que foramcortados em 1968, com o exílio de Caetano e Gil. Mas a voz do primeiro ainda ecoava: “vocês estão por fora! Vocês não dão pra entender. Mas que juventude é essa? Vocês jamais conterão ninguém. Vocês são iguais sabem a quem? Àqueles que foram na Roda Viva e espancaram os atores! Vocês não diferem em nada deles, vocês não diferem em nada.”

Personagens do novo

Torquato Neto
Tom Zé
Rita Lee
Arnaldo Bapstista
Sérgio Dias
Nara Leão
Capinam
Gal Costa
Gil
Caetano

Não, isso não é relação de time de futebol. Muito menos de participantes de algum reality show! A seleção acima bem que poderia representar o Brasil, mas não em modalidades esportivas. Os craques se dão bem em outros campos.

Com uma caneta na mão, idéias na cabeça e atitude, a revolução pode acontecer. “Alegria, Alegria”, disse Caetano Veloso. O baiano encabeçou o movimento ao lado do conterrâneo Gilberto Gil. Ambos estavam no III Festival da Música Popular Brasileira, da Rede Record, onde apresentaram – sob vaias – seus trabalhos. Foi ali, naquele palco, que teve início o movimento tropicalista, batizado assim pelo jornalista Nelson Motta, no ano seguinte.

Gal Costa, Capinan e Tom Zé eram peças fundamentais nesse time, os também baianos estiveram na linha de frente da Tropicália. Quando Caetano e Gil foram exilados, lideraram a resistência dos tropicalistas no país. Os três baianos continuaram a produção em terras tupiniquins e não deixaram que a bola baixasse enquanto os dois pilares do estavam fora do Brasil.

Nara Leão, capixaba de Vitória, uma das maiores intérpretes da época também participou da Tropicália, depois de ganhar o II Festival da MPB da Rede Record, com a música A Banda, de Chico Buarque. Já Torquato Neto surgiu como um dos principais compositores do movimento. Nascido em Teresina, foi um dos mais engajados a mudar a cultura vigente, acabar com as músicas comerciais, além de ser ferrenho defensor dos direitos autorais. Tanto Nara como Torquato já faleceram, ela em 1989, vítima de um câncer no cérebro. Ele suicidou-se, em 1972, no Rio de Janeiro.

“Adeus, vou pra não voltar.
E onde quer que eu vá,
Sei que vou sozinho”

 

(Pra Dizer Adeus – Torquato Neto/Edu Lobo)

Talvez quem mais revolucionasse na MPB da época, em termos de composição musical, tenham sido Os Mutantes formados pelos irmãos Arnaldo Baptista, Sérgio Dias e a cantora Rita Lee (na época, ainda Rita Lee Jones). Influenciados pelos sons psicodélicos de Pink Floyd e dos Beatles, os paulistas abusaram de elementos do rock progressivo, como os contratempos e, assim como os integrantes das bandas britânicas, das drogas.

“Eu juro que é melhor não ser um normal se eu posso pensar que Deus sou eu”

(Balada do Louco – Arnaldo Baptista/Rita
Lee)

Fotos: www.tropicalia.com.br


Quando estudava no Ensino Médio, veio estampado no livro de Literatura como exemplo de metáfora a estrofe inicial de Tropicália [música de Caetano Veloso]. Isso demonstra que a poesia era uma das características que saltavam da musicalidade inovadora no país tropical do final dos anos 60.

As composições traziam nas linhas um movimento de exautação da [contra]cultura brasileira marginalizada da mpb da época e nas entre-linhas a crítica ao “sol de quase dezembro” que se repartia “em caras de presidentes, em grandes beijos de amor, em dentes, pernas, bandeiras, bomba e Brigitte Bardot…” [trecho de Alegria, Alegria].

Eu organizo o movimento
Eu oriento o carnaval
Eu inauguro o monumento
No planalto central do país…

Viva a bossa Sa, sa
Viva a palhoça Ça, ça, ça, ça…

Viva a mata Ta, ta
Viva a mulata Ta, ta, ta, ta…

No pátio interno há uma piscina
Com água azul de Amaralina
Coqueiro, brisa
E fala nordestina
E faróis
Na mão direita tem uma roseira
Autenticando eterna primavera
E no jardim os urubus passeiam
A tarde inteira
Entre os girassóis…

Viva Maria Ia, ia
Viva a Bahia Ia, ia, ia, ia…

Viva Iracema Ma, ma
Viva Ipanema Ma, ma, ma, ma…

Domingo é o fino-da-bossa
Segunda-feira está na fossa
Terça-feira vai à roça
Porém!
O monumento é bem moderno
Não disse nada do modelo
Do meu terno
Que tudo mais vá pro inferno
Meu bem!
Que tudo mais vá pro inferno
Meu bem!…

Viva a banda Da, da
Carmem Miranda Da, da, da, da…

Na semana Tropicália, o Estúdio se atreve a parodiar Sobre o Som escrito por Caetano Veloso nos modernos tempos de ditadura.

Sobre a farda, patentes
Cobrem a cabeça, capacetes
Me apontam, não há inocentes,
os fuzis.

Cachaça, cana lha lha
Bebe, Tropica lha lha lha

Nas minhas canções, o lamento
Minha voz o meu punhal
Quem me ouve à cultura atento
A contra música original brasilis

Segunda-feira
Terça-feira
Quarta-feira, ócio Macunaíma
Quinta-feira a Domingo já final de semana
Porém!
Nos dias de folga, há cultura.

Dona Chica ca
Admirou-se se
Com o berrô, como berrô
Que Caetano deu:
Tropicalha lha lha.

O som de um órgão surge com seus acordes dramáticos . Em seguida, uma batida meio regional, mixada com violão, chocalhos e o cantor entra: Miserere-re nobis, ora ora pro nobis. Vocais agudos dançam ao fundo. A composição se desenvolve, muda e retorna. Miserere-re nobis. Brazil, fuzil, canhão e os tiros finalizam a primeira e iniciam a segunda canção.

Essa é uma descrição do início da obra Tropicália ou Panis et Circensis, lançada em forma de LP há quase 40 anos. As doze músicas do LP foram interpretadas por Caetano Veloso e Gilberto Gil, os idealizadores da obra, e mais: pel’ Os Mutantes, Nara Leão, Tom Zé e Gal Costa. Os arranjos do maestro Rogério Duprat foram vitais para que o disco, apesar da diversidade, alcançasse uma essência, que se revelaria propriamente a essência da Tropicália.

Um ano depois do lançamento de Sgt. Pepper’s Lonely Hearts Club Band, dos Beatles, e a antena de Gil vibrava com a possibilidade de uma obra conceitual que mudasse a concepção musical brasileira. Caetano Veloso propõe, então, um projeto coletivo, que mostrasse o sincretismo do popular e erudito, da estética e linguagem e do nacional e internacional. Aliais esse anti-xenofobismo à cultura estrangeira foi influência de outro manifesto, o Antropofágico, publicado há 80 anos atrás por Oswald de Andrade.

Tropicália ou Panis et Circenses foi gravado em São Paulo, em maio de 1968 e lançado em agosto do mesmo ano, durante festas debochadas em gafieiras cariocas e paulistas. Contém música cubana, happening, bolero dramalhão, psicodelismo, bumba meu boi, efeitos sonoros, lisrismo, poesia concretista, instrumentos clássicos e muita referência a ícones pop. Foi tido como um disco manifesto, por ter delineado idéias experimentais que já rondavam no país fora do eixo da música politizada de esquerda e do tradicionalismo de direita.

A música de Caetano, Tropicália, deu um dos nomes da obra, mas não entrou na composição do disco. Já Panis et Circensis alcançou status de obra prima pelos efeitos sonoros de uma sala de jantar e o clássico momento em que se tem a impresssão que a vitrola foi desligada e a música parece derreter aos ouvidos. Roberto Debrat, arranjador do disco, chega a afirmar que, com a interpretação de Panis, Os Mutantes estavam à frente dos Beatles.

A estética marcou, assim como o movimento Tropicália, o próprio disco manifesto. Para a capa, foi convidado Rubens Gerchman, pintor que também inspirou a música Lindonéia com seu quadro A Bela Lindonéia. A foto da capa explicita a que veio os Tropicalistas: a pose de família patriarcal, contrasta com o penico na mão de Roberto Debrat, menção direta à arte dadaísta. O visual em estilo rural de alguns cantores com as guitarras empunhadas pel’Os Mutantes no último plano. As letras ultra coloridas com as cores da bandeira nacional e o semblante sério dos músicos.

Na contra capa, um mini-roteiro com falas dos envolvidos no disco, e mais ainda, com uma frase de João Gilberto, a quem Caetano Veloso amava, mas queria a todo custo derrubar o elitismo e bom-gostismo causado pela Bossa Nova, revelava ainda mais a essência disforme de Tropicália ou Panis et Circencis:

Duprat: A música não existe mais. Entretanto sinto que é necessário criar algo novo. Já não me interessa o municipal, nem a queda do municipal, nem a destruição do municipal. Mas a vocês , mal saídos do borralho, vocês baianos, terão coragem de se preocupar comigo? Terão coragem de fuçar o chão do real? Como receberão a notícia de que o disco é feito para vender? Com que olhar verão um jovem paulista nascido na época de Celly Campelo e que desconhece Aracy, Caymmi e Cia? Terão coragem para reconhecer que este jovem tem muita coisa para lhes ensinar…

– Sabem vocês o risco que correm? Terão mesmo coragem de saber que só desvencilhando-se do conhecimento atual que tem das formas puras do passado é que poderão reencontrá-las na sua verdade mais profunda? Por acaso entendem alguma coisa do que eu estou dizendo? Baianos repondam…

Gil: O Brasil é o país do futuro.

Caetano: Este gênero está caindo de moda.

Capinan (um dos letristas que contribuíram para o disco): No Brasil e lá fora: nem ideologia , nem futuro.

Torquato (outro letrista) : Será que o Câmara Cascudo vai pensar que nós estamos querendo dizer que o ‘bumba-meu-boi’ e ‘iêiêiê’ são a mesma coisa?

Nara: Pois é: as pessoas se perdem nas ruas e não sabem ler. Consultam consultórios sentimentais e querem ser miss Brasil… e se perdem.

Os Mutantes: E aquela distorção dá a idéia de que a guitarra tem um som contínuo…a até a boutique dos Beatles se chama ‘a maçã’…

João Gilberto: (Em NY conversando com A.Campos). Diga que eu estou aqui, olhando pra eles.

E nós também, mesmo 40 anos depois! Escute o LP Tropicália ou Panis et Circencis e descubra você mesmo(a) o disco manifesto.

Jukebox_Tropicalismo


Explosão de cores, guitarras, discursos, hippies, protestos e muita, muita aversão.

Nesta semana, o Estúdio ao Vivo mexe com a cultura pré-determinada e determinista; joga com Alegria duplamente afirmada; brinca com capoeira e entra na roda com com , Gil, Veloso. Essas caras diferentes, “pra-frente”, vanguardas, fizeram do palco muito mais que um espaço para se tocar.

Tudo isso é Tropicalismo. Respeitável público, bem-vindos ao Panis Et Circenses!