O som de um órgão surge com seus acordes dramáticos . Em seguida, uma batida meio regional, mixada com violão, chocalhos e o cantor entra: Miserere-re nobis, ora ora pro nobis. Vocais agudos dançam ao fundo. A composição se desenvolve, muda e retorna. Miserere-re nobis. Brazil, fuzil, canhão e os tiros finalizam a primeira e iniciam a segunda canção.

Essa é uma descrição do início da obra Tropicália ou Panis et Circensis, lançada em forma de LP há quase 40 anos. As doze músicas do LP foram interpretadas por Caetano Veloso e Gilberto Gil, os idealizadores da obra, e mais: pel’ Os Mutantes, Nara Leão, Tom Zé e Gal Costa. Os arranjos do maestro Rogério Duprat foram vitais para que o disco, apesar da diversidade, alcançasse uma essência, que se revelaria propriamente a essência da Tropicália.

Um ano depois do lançamento de Sgt. Pepper’s Lonely Hearts Club Band, dos Beatles, e a antena de Gil vibrava com a possibilidade de uma obra conceitual que mudasse a concepção musical brasileira. Caetano Veloso propõe, então, um projeto coletivo, que mostrasse o sincretismo do popular e erudito, da estética e linguagem e do nacional e internacional. Aliais esse anti-xenofobismo à cultura estrangeira foi influência de outro manifesto, o Antropofágico, publicado há 80 anos atrás por Oswald de Andrade.

Tropicália ou Panis et Circenses foi gravado em São Paulo, em maio de 1968 e lançado em agosto do mesmo ano, durante festas debochadas em gafieiras cariocas e paulistas. Contém música cubana, happening, bolero dramalhão, psicodelismo, bumba meu boi, efeitos sonoros, lisrismo, poesia concretista, instrumentos clássicos e muita referência a ícones pop. Foi tido como um disco manifesto, por ter delineado idéias experimentais que já rondavam no país fora do eixo da música politizada de esquerda e do tradicionalismo de direita.

A música de Caetano, Tropicália, deu um dos nomes da obra, mas não entrou na composição do disco. Já Panis et Circensis alcançou status de obra prima pelos efeitos sonoros de uma sala de jantar e o clássico momento em que se tem a impresssão que a vitrola foi desligada e a música parece derreter aos ouvidos. Roberto Debrat, arranjador do disco, chega a afirmar que, com a interpretação de Panis, Os Mutantes estavam à frente dos Beatles.

A estética marcou, assim como o movimento Tropicália, o próprio disco manifesto. Para a capa, foi convidado Rubens Gerchman, pintor que também inspirou a música Lindonéia com seu quadro A Bela Lindonéia. A foto da capa explicita a que veio os Tropicalistas: a pose de família patriarcal, contrasta com o penico na mão de Roberto Debrat, menção direta à arte dadaísta. O visual em estilo rural de alguns cantores com as guitarras empunhadas pel’Os Mutantes no último plano. As letras ultra coloridas com as cores da bandeira nacional e o semblante sério dos músicos.

Na contra capa, um mini-roteiro com falas dos envolvidos no disco, e mais ainda, com uma frase de João Gilberto, a quem Caetano Veloso amava, mas queria a todo custo derrubar o elitismo e bom-gostismo causado pela Bossa Nova, revelava ainda mais a essência disforme de Tropicália ou Panis et Circencis:

Duprat: A música não existe mais. Entretanto sinto que é necessário criar algo novo. Já não me interessa o municipal, nem a queda do municipal, nem a destruição do municipal. Mas a vocês , mal saídos do borralho, vocês baianos, terão coragem de se preocupar comigo? Terão coragem de fuçar o chão do real? Como receberão a notícia de que o disco é feito para vender? Com que olhar verão um jovem paulista nascido na época de Celly Campelo e que desconhece Aracy, Caymmi e Cia? Terão coragem para reconhecer que este jovem tem muita coisa para lhes ensinar…

– Sabem vocês o risco que correm? Terão mesmo coragem de saber que só desvencilhando-se do conhecimento atual que tem das formas puras do passado é que poderão reencontrá-las na sua verdade mais profunda? Por acaso entendem alguma coisa do que eu estou dizendo? Baianos repondam…

Gil: O Brasil é o país do futuro.

Caetano: Este gênero está caindo de moda.

Capinan (um dos letristas que contribuíram para o disco): No Brasil e lá fora: nem ideologia , nem futuro.

Torquato (outro letrista) : Será que o Câmara Cascudo vai pensar que nós estamos querendo dizer que o ‘bumba-meu-boi’ e ‘iêiêiê’ são a mesma coisa?

Nara: Pois é: as pessoas se perdem nas ruas e não sabem ler. Consultam consultórios sentimentais e querem ser miss Brasil… e se perdem.

Os Mutantes: E aquela distorção dá a idéia de que a guitarra tem um som contínuo…a até a boutique dos Beatles se chama ‘a maçã’…

João Gilberto: (Em NY conversando com A.Campos). Diga que eu estou aqui, olhando pra eles.

E nós também, mesmo 40 anos depois! Escute o LP Tropicália ou Panis et Circencis e descubra você mesmo(a) o disco manifesto.

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3 comentários sobre “

  1. Parabéns Carolina, ótima matéria!!!
    Vale lembra que logo depois Caetano e Gil foram embora pro exílio, por causa da ditadura, o País estava sem pé, nem cabeça, sem elite intelectual, sem artistas, estavamos a mêrce da ignorância militar!!!!
    Deixo minhas saudades do Maestro Rogério Duprat, falecido ano passado, que fez maravilhosas rupturas na MPB e nos eruditos tupiniquins!!!
    abraços,

    André Quick
    Rock´s Aderente

  2. Ótimo texto! Ressaltou importantíssimos pontos a respeito dessa obra de arte, como a influencia dos Beatles com o revolucionário Sgt Pepper’s, e fez uma ótima análise da capa do album!
    PARABENS a todos!
    Espero por mais!
    Abraços!

  3. Eis que o Sul de Minas invade os posts do Estúdio, hehe.
    Concordo com o Luiz Fernando, Carol. Acho que o Estúdio está lhe fazendo bem, hehe.
    Pode aguardar Luiz Fernando que até domingo vai rolar muita coisa aqui no blog.

    Aguardem os próximos posts que aguardamos os próximos coments.

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