Além do tradicional, aquém do virtuosismo

O que eu pretendo para o futuro é continuar vivendo de música com dignidade e focando no que eu gosto.

Pés no chão. Apesar de reconhecido como um dos maiores instrumentistas do Brasil, Jefferson Gonçalves toca pela alegria em estar no palco, e demonstra este sentimento de forma sutil, espontânea e com uma interpretação que demonstra o quanto gosta de tocar. Foi com essa mesma atitude e naturalidade que o gaitista Jefferson Gonçalves falou ao Estúdio ao Vivo sobre carreira, parcerias e repercussão do trabalho.

Formação Musical
Eu comecei a tocar gaita, na verdade, com 20 anos. Sempre gostei de música, mas como ouvinte. Meus irmãos escutavam muita música em casa e Rock’n Roll, música instrumental… Eu sempre escutei isso, mas com 20 anos eu fui procurar um professor e ter aula de gaita. Na verdade eu tive aula de gaita cromática, tocava valsa, choro, bossa-nova, achando que um dia fosse tocar o som que eu queria, que era Bob Dylan, Neil Young, Blues – e eu fui começar Blues através do Rock’n Roll.

Na verdade, eu não sou autodidata porque eu tive aula. Tive três professores: o Sebastião Dornelas, na cromática, tive o Flávio Guimarães, na diatônica, e depois o Zé da Gaita. Esses que eu considero como os meus professores mesmo, que me apresentaram. Mas até hoje eu tenho aula. Até hoje eu conheço vários gaitistas, vários músicos, estou sempre perguntando. José Staneck já me deu aula, Norton Buffalo, Peter Madcat, todo mundo [com quem] eu divido o palco eu estou sempre aprendendo, com qualquer músico. De um tocador de pife a um violeiro.

Não sou nenhum ótimo leitor de partitura, não uso então não leio tanto. O pouco que eu sei de música é focado para o meu instrumento e dentro da área que eu trabalho. Não sou aquele que conheço todos os estilos, todas as combinações harmônicas e sei improvisar em todas as combinações harmônicas. Dentro da praia que eu tentei seguir, eu tento fazer o melhor. Mas eu conheço o chão onde eu tô pisando. Por isso que eu não me arrisco em muitas outras coisas. Pra eu me arriscar eu vou parar e vou pesquisar, como eu fiz essa pesquisa para esse trabalho que eu faço hoje.

Busca
Eu comecei por um acaso na música. Comecei na música não pensando em “ah, vou viver de música”. Comecei de hobby. Quando eu me vi eu estava com 22 anos já com uma banda, chamada Baseado em Blues, que eu fundei junto com André Casquilho, que era o vocalista. Já tinha largado o banco, largado a faculdade para começar a tentar viver de música. Mas nunca imaginei que hoje estaria aqui com meu trablaho, tudo foi acontecendo naturalmente. Nunca almejei um status.

Nordeste
Eu sempre escutava em casa, de Jackson do Pandeiro a Jethro Tull a Led Zeppelin a Luiz Gonzaga a Little Water. Sempre escutei, mas não a fundo. Escutava Quinteto Violado, Quinteto Harmorial, Alceu Valença, que eu acho muito bom também. Mas nunca conheci a fundo a cultura deles.

Em 2001, foi minha primeira turnê para o Nordeste. Fui tocar em Recife, conheci um produtor e baterista, chamado Giovane Papaléu, e ele me apresentou muita coisa. Inclusive foi quem me fez o contato pra eu conhecer o Tavares da Gaita, que era um artista de rua que tocava instrumento de percussão e tocava gaita. E daí ele me apresentou várias coisas da cultura nordestina, principalmente Pernambuco. Maracatu, banda de pífanos, essas coisas todas. Eu fui gostando e comecei a ver a coisa do ritmo, porque eu sempre gostei de tocar gaita ritmicamente. Gaita é o único instrumento que você sopra e aspira e é o único instrumento de sopro que você pode fazer acorde, como se fosse um piano ou um violão. E você pode trabalhar percussivamente também. Então eu comecei a procurar uma forma de tocar percussivamente.

Comecei a ver essa coisa dos trios de forró, do maracatu, do caboclinho, comecei a pesquisar aquilo e aí o meu primeiro CD saiu em 2004, o Dréa. Eu trabalhei com vários músicos de Pernambuco, de Recife, de Caruaru, e gravei esse CD com essa mistura. E continuei pesquisando. Em 2005 eu gravei um show meu, que saiu o CD ao vivo, Conexão Nordeste, já bem mais maduro. Viajei quase o Nordeste todo, tem poucas cidades que eu não fui. E comecei a ir muito para o Ceará, principalmente a região do Cariri: Crato, Juazeiro, Nova Olinda… Aí eu comecei a conhecer ali aquela coisa regional mesmo, muito mais regional do que eu conheci em Recife, que era a capital.

Eu comecei a ver muito mais ligação que nos outros CDs, começou a amadurecer mais as minhas idéias e, pra mim, o meu último CD, o Ar Puro, é um divisor de águas, está bem mais focado nesse trabalho que eu estou querendo.

Hoje eu escuto mais música nordestina do que Blues, eu gosto de conhecer os mestres. Porque pra mim é a mesma comparação de você ver um bluezeiro americano – aqueles velhinhos que tocam Blues, que aprenderam tocando no dia-a-dia – é a mesma coisa que eu vejo um tocador de pife, um tocador de sanfona que não sabe o que é um Dó e tocam daquela forma. Pra mim, é a mesma coisa. Só que é minha cultura. Então eu tento pesquisar aquilo. Pra mim, é o mais real que eu acho tocar, porque é dentro da minha cultura. Tocar igual um americano eu não vou conseguir nunca. Tocar igual um negro americano eu não vou conseguir.

E agora, meu próximo CD eu já comecei mais no Maranhão, gravei uma música com os ritmos maranhenses também, que são completamente diferentes dos ritmos do Ceará, de Pernambuco… Então estou cada vez mais pesquisando. Estive na África também, peguei algumas coisas da cultura africana, que tem muito a ver com isso.

Na verdade, eu acho que a África é o berço dessa cultura negra. Uma parte veio para o Brasil, outra parte para os Estados Unidos. Mas a musicalidade, a raiz, vem da cultura negra, da África mesmo.

Receptividade do NE
Muito bem aceito, até mais pela galera do regional, da música tradicional, eles ficam surpresos de chegar um cara tocando gaita, tocando a onda deles, do que o próprio pessoal de Blues, que faz Blues lá, que [falam] “ah, não, isso não é Blues”, tem um preconceito muito maior. E eu fico feliz de tocar com um mestre daqueles e [ele] falar “ih, esse caboclo aí sabe tocar igual um nordestino tocando”. Eu gosto disso, é natural. Quando eles não gostam também eles falam “ih, não toca nada”. Então, eles ficam impressionados e curtem, levam o som.

Toquei com vários no dia-a-dia, na rua, então isso pra mim é um aprendizado muito legal. E estou vendo que está dando certo, estou sendo bem aceito nesse meio, apesar de não ser o meu meio. Eu não acho que toco música brasileira nem música regional. Minha base é o Blues, eu aprendi gaita tocando Blues. Criei, criei não, comecei a fazer uma outra praia, não sei nem se eu fui o precussor a fazer isso, deve ter mais gente fazendo isso. Mas pelo menos o meu está mais em voga, estou correndo atrás e estou sendo bem aceito.

Variedade de estilos
Fico triste porque a galera do meu meio, onde eu comecei, já não me olha com os olhos que olhava antes. “Ah, não toca Blues”. Na verdade, eu estou tocando música, não estou preocupado em tocar Blues, tocar Rock, tocar Samba, tocar Chôro. Tô preocupado em tocar música. Se no meu próximo CD eu tiver que tocar uma música irlandesa, como eu toquei no CD Ar Puro, eu vou tocar de novo. Se tiver que tocar uma Bossa Nova e eu achar que naquele momento tem a ver naquela fase da minha vida, eu vou tocar. Mas vou tocar do meu modo, não vou tocar como um gaitista de Bossa Nova.

Repercussão no Exterior
Eu tenho recebido bastante e-mail, as pessoas têm gostado, meus CDs estão vendendo bem lá fora. Tem alguns sites que vendem música independente, tanto pra download quanto para CD mesmo, que estão sempre me pedindo pra repor estoque, estou vendendo bem. Infelizmente, todas as viagens que eu fiz para o exterior eu não consegui fazer com a banda toda. Então a gente tenta fazer milagre. Vamos eu e Kléber, eu na gaita, ele cantando e fazendo violão, tentando fazer o trabalho de seis. Mas, mesmo assim, eles sentem uma diferença.

E, principalmente, quando tem algum festival aqui no Brasil, que tem outros artistas de outros países, eles veem isso e dizem “é diferente”. Eles se sentem mais instigados em assistir aquilo ali do que ver um cara tentando tocar um Blues como eles estão acostumados a ver em qualquer esquina lá: “peraí, o cara pegou uma música da minha cidade lá, do meu país e está colocando um ritmo maluco, o que é isso?”. E está sendo bem aceito.

Infelizmente, não estou consguindo apoio para poder viajar com a banda toda e fazer o que eu acho que daria bem certo. Porque todo mundo fala “seu trabalho é pra fora, é para o exterior”, mas aqui no Brasil também não páro de trabalhar, estou curtindo pra caramba. O que tiver que acontecer, vai acontecer. Não estou preocupado se tenho que ir para os Estados Unidos, tenho que ir para a Europa. O dia que tiver que acontecer, espero até os 90 anos estar tocando, se aos 89 me convidarem com a banda, eu vou.

Valorização da música
Eu acho que falta dar oportunidade ao público. Porque valorizado já é. Você vai pegar alguns estados que dão valor à música instrumental, dão valor ao Blues, dão valor ao Rock’n Roll, e você vê que tem Festival o ano todo, de Jazz, de Blues, de música instrumental brasileira, aqui memso em Minas tem o Festival de Ouro Preto. Mas a mídia não dá oportunidade ao público de poder saber “tem esse tipo de música, tem esse aqui e esse aqui, o que você gosta:”. Pelo menos instingar a pessoa a conhecer esse tipo de música.

Porque nessas andanças que eu tive também pelo interior do Ceará, do Nordeste, foi bom isso também, porque eu toquei em muito festival de música. Toquei em festival de violeiro, eu entrei tocando esse meu som. No começo, o público ficava meio assustado, mas depois vinha. Você conseguindo mostrar seu trabalho e cinco pessoas venham “pô, legal, gostei, vou mostrar para o meu amigo”, você daqui a pouco está gerando público, formando platéia.

Tem uma coisa do artista também de botar um pouco a cara a tapa. “Ah, é um festival de viola. Não, meu som não é de viola”. Vamo lá, se estão me chamando é porque tem alguma coisa a ver. Não ter medo de tomar tomate, mas ir lá e tocar. Eu não tenho medo de fazer isso, pôr minha cara a tapa. Mas eu acho que o problema mais é da mídia. A internet está aí, mas o público ainda não está fuçando a internet como deve ser fuçada para saber o que está acontecendo. A internet ainda está sendo muito usada para MSN, Orkut Twitter, infelizmente. Tem um mundo de gente fazendo tanta coisa maluca, tanta coisa boa. Se você pegar músicos do leste europeu, que é agora que eles estão começando, depois que a Alemanha começou a juntar aí, você vê cada coisa louca e “pô, como é que não chega isso aqui?”. Não chega porque você não procura. Nunca vai cair no teu colo, é o que eu acho. A galera da internet, da geração CD, ficou acomodada.

Na minha época que era vinil, você sempre sabia “fulano comprou o vinil de não-sei-quem”, sempre tinha um contato. Não tinha internet, era carta e telefone, e todo mundo sabia, todo mundo conseguia. Saía lá na Inglaterra, daqui a um mês, no máximo, estava aqui. Hoje, com a internet não precisa nem demorar tanto, e tem gente que nem conhece. Também não tem a coisa da procura, acho que tem que ter um pouco da procura também. É uma faca de dois gumes.

A banda
A banda sofreu duas mudanças. No primeiro CD, a gente tinha o Luís Guilherme, que fazia bandolim, saxofone e guitarra, e era o Beto VerderMarcus B2 na batera, Kléber [Dias] e Fábio [Mesquita]. Aí fizemos a turnê do primeiro CD todo. No segundo CD, já mudou o percussionista e saiu o Luís Guilherme. Um foi morar fora, o outro já estava com outros trabalhos, e a gente fez a greavação do segundo CD. Aí já entrou o Sérgio Velasco e o Marco B. Z. na percussão, que é a formação atual. A gente fez a turnê toda do Conexão Nordeste Ao Vivo, aí quando a gente foi começar a gravar o Ar Puro, o Beto Verder saiu e entrou o Anderson Moraes.

Mas a base mesmo, foram poucas mudanças. Volta e meia tem um que muda, igual hoje, a gente não vai fazer com o B.Z. porque ele está viajando com outro trabalho, aí acabou que está o Marco Arruda fazendo a percussão hoje. Mas a base, que eu considero que não pode faltar para mim, é o Kléber Dias, que é meu parceiro de composição, e o Fábio Mesquita.

Sonoridade
Na verdade, eu subo no palco para me divertir. A gente tenta ser o mais honesto possível no palco, a gente não está preocupado em “vamos fazer uma música de intelectual, vamos mostrar o quanto a gente toca”, a gente está preocupado em se divertir e passar a nossa alegria para o público.

Eu acho que acaba contagiando. Tem a coisa do ritmo, que é forte no Brasil, você chegar com uma bateria, uma percussão o tempo todo fazendo o ritmo ali, não tem quem não bata pelo menos o pé no chão. Então tem essa coisa que já está a nosso favor. E não tenho preocupação de fazer uma música “ah, vamos mostrar que a gente é bom”. Sai naturalmente. Então a gente consegue conquistar isso. O que eu fico feliz é de acontecer às vezes, tem show que eu estou tocando e tem gente no meio do salão dançando. Pra mim, se eles estão ali dançando é porque estão curtindo tanto quanto a gente ali em cima.

Não é aquela coisa que a pessoa fica sentada, e acabou um solo, bater palma. Legal, é outro estilo de música, mas não a música que eu tento fazer. Eu tento fazer uma música pra me divertir. às vezes eu me preocupo mais com a melodia e com o ritmo do que com o virtuosismo. Então, é isso que a gente passa para o público.

Ritmos
A gente toca de tudo, começa com o Baião, termina com o Country, passa por várias vertentes de música, tocando do nosso jeito, não tocando do jeito tradicional de Baião, do jeito tradicional de Blues, do jeito tradicional de Country: dar a nossa forma de tocar. Porque cada um aí tem um gosto musical, tanto que hoje a gente pegou 7 horas de van, foi uma briga pra escutar o som que cada um gosta mais. E, nisso, quando a gente vai tocar, ninguém está preocupado em “não, vamos impor isso aqui”. Não, quando vê é uma miscelânea de informações que sai esse som que a gente não sabe nem o que é.

Ao Público
Queria pedir ao público de Viçosa para ficar ligado no que está acontecendo de música no Brasil, no mundo. Eu estou super feliz de estar aqui, porque desde a época do Baseado em Blues, todo mundo que eu conhecia na estrada – eu estava fazendo Vestibular para Veterinária e abandonei, então sempre viajei muito, conhecia muita gente de Viçosa [que dizia] “ah, estou em Viçosa, faço faculdade, você tem que tocar lá, tem público muito legal”. Então hoje eu estou feliz e estou podendo vir com o meu trabalho, mostrar a minha fase nova. Então, espero que o público curta e que me chame novamente para cá. Eu espero voltar mais vezes, tocar mais, estou super feliz de chegar aqui, apesar de 8 horas de estrada sem parar de chuva. Mas foi muito legal, eu espero voltar mais, mais, mais e conseguir trazer mais público pra cá, ter meu público aqui e poder abrir uma porta. Porque a chance que estão me dando de eu tocar aqui, mostrar minha música, não tem preço.

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