Escala em preto e branco: a ponte pelo improviso

Sob os tons enrubescidos de uma atmosfera inspirada nas casas tradicionais que acolhem os compassos do Jazz e do Blues, a noite de sexta-feira abrigou a abertura da terceira edição do Festival viçosense que homenageia as duas expressões musicais.

Da ordenação artístico-musical à boa disposição estrutural, o clima intimista fez do hall de entrada e do mezanino do Centro de Vivência da UFV, envolvidos pela trilha sonora temática, um conjunto harmônico ao Espaço Fernando Sabino: o palco do encantamento pelas teclas de pianistas, tema do Vijazz & Blues, recebeu a liberdade rítmica de Fabiano de Castro Quinteto (com Vinicius Dorin) e a cadência de Donny Nichilo.

Espaço Imaginário
Com as teclas na caixa do baixo, as cordas na ponta dos dedos do sax, a percussão preta e branca do piano e o sopro das mãos às baquetas, Fabiano de Castro (piano), Vinícius Dorin (sax e flauta), João Paulo Barbosa (sax e flauta), Ricardo Zohyo (baixo acústico) e Cleber Almeida (bateria) fizeram reverberar o improviso e a leveza que marcariam a noite.

As 200 cordas vibradas pela inspiração do pianista, que de olhos fechados e com profunda expressão transmitia a intensidade serena do jazz, revelaram uma mistura de influências e ritmos. Dos elementos de samba na composição própria “Algum Tempo Depois” ao maracatu, baião e raiz mineira de “Perdido em Airões”, o suingue e os solos demonstraram a versatilidade de cada um dos integrantes da banda. Dessa mistura, a essência “é você buscar essas influências todas e deixar a emoção aflorar” [Fabiano de Castro].

Com originalidade, Fabiano de Castro apresentou as canções “Espaço Imaginário” e “13º Andar”, de sua autoria, além da música “Nascente” (Flávio Venturini) com uma versão especial para o Festival e referência a Minas Gerais. O diferencial do arranjo inclui as duas flautas transversais de João Paulo Barbosa e Vinícius Dorin.

Blues for Viçosa
Na forma peculiar de definir suas notas em melancolia, o Blues extrapola o conceito de música e mostra, em sua origem, um meio de expressão da cultura negro-africana. Entre swing e alterações da escala maior, o verdadeiro Blues de Chicago trouxe a Viçosa a autenticidade e a riqueza de influências de Donny Nichilo (voz, piano e gaita).

O ritmo compassado dos pés da platéia em uníssono ao toque do pianista e à participação intensa de Igor Prado Band – Igor Prado (vocais e guitarra), Rodrigo Mantovani (baixo) e Yuri Prado (bateria) –, levaram à segunda parte da noite o peso inspirador de um blues improvisado e determinado pela raiz do ritmo.

A tradição viva no III ViJazz & Blues ressoou a experiência de um pianista que já ofereceu seus tons a renomados gurus do blues como Stevie Ray Vaughan e Buddy Guy e que mantém a ocular simplicidade em uma presença natural de seus sons.

Com uma levada sensível e vibrante, a integração com os músicos brasileiros deu ao show referências originais e de rythm’n’blues dos anos 40, 50 e 60. A incorporação visual do estilo e a sintonia dos arranjos compuseram a dinâmica de um improviso em unidade.

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