Pra se prender no circuito astral

A viagem em 3ª ordem no Grito Rock fez-se um navegar em notas sem intervalos: o sibilar ininterrupto, eletro-magnético-solado, soou como átomo da atração “psicótica” de Jean Strigheta (voz e guitarra), o seu contraste com o sentimental Rodrigo Faleiros (voz e baixo) e o complemento do avassalador Diogo Zarate (voz e bateria).

Os uivos de solos rasantes no pout-pourri integrado a “Astro” fizeram reconhecidos acordes além de Michael Jackson, The Beatles e Led Zeppelin, como influências que passam sutis até por uma chuva de riffs meteórico-rolantes. O clima espacial parece ter ampliado a percepção do soar no vazio – como se o silêncio do vácuo explodisse na soma de compassos próprios, pousando no palco do New York Pub.

As linhas de improviso de Jennifer Magnética encontram iguais variações nos níveis de efeitos combinados no computador, mas, ainda que presos ao tempo da tela, o espontâneo é também programado. O ar raro e feito de brincadeiras em detalhes aparece sutil nos dizeres de um estilo não-identificado.

As três vozes amplificam o estroboscópio, com cada face trabalhada em essência única: o rouco do bumbo, com momentos-surpresa de viradas-solos, a extravasar cada meio-tom; o baixo em seu dançar frenético, de gargalhadas ao submergir gélido em deixar cair-se cometa no palco; o múltiplo soar da guitarra, como três em um – de solo, base e peso. Entre morfina e arsênico¹, Jennifer Magnética nos serve uma atmosfera de ambos, com um leve acréscimo de antídoto à monotonia: O Verdadeiro Underground².

Os volts alternados causaram fagulhas ascendentes no Festival. Do mais austero impor de som ao íntimo combinar de vozes, The Galo Power distribuiu as cargas do Blues somadas à resistência de todo intervalo compassado do Country.

Era de se percorrer os fios da guitarra de Bruno Galo com o mesmo escape das cordas vocais – o cantar intimista, em tom negativo, fecha o sistema com o peso da imposição positiva de Salma Jordana.

A combinação masculino/sentimental e feminino/força transpõe-se para a melodia: o brilho da guitarra em solos enérgicos, o baixo-marcado-intrigante de Rodolpho Gomes, a bateria em visual rural de Evandro Galo, que completa a pegada interiorana das mais tradicionais e marcantes levadas do Rock 50’s.

O ensurdecer do Classic-Rock-Psicodélico impõe a Solução Final³ no máximo volume amplificado: institui-se o Grito como circuito.

O sotaque caseiro tomado de inspiração para se anunciar personagens em palco é o mesmo que agrega a Lucas Prestes (bateria e backing vocal), Renato (baixo), Leo (guitarra e backing vocal) e Breno César (guitarra e voz) o desafio: erguer-se num espaço tão desejado seria a brisa mais forte ao telhado do grupo. Mas Danateia entrega aos ouvidos cacos lapidados e integra ao vivo a resistência de uma teia recém-construída.

Por vezes de proteção, as bases fortes exaltam um caminho seguro, de marcação bem definida, peso carregado em pautas e alicerçado em construção simétrica. Em outras, de captura, o grupo parece agregar o pulsar do ambiente e o orvalho exalado das vozes, transformando o Hard do Rock em uma expressão altivo-singular. É em força, pois, que Danateia se apoia para evitar a quebra e prender-se ao alternativo que não passará invisível.

¹do EP Licopeno, 2008.
²CD lançado em 2010.
³música da banda, “Final Solution”, em tradução livre.

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